INTERNET E CIBERCULTURA

Que a internet revolucionou completamente nossa maneira de consumir cultura, todo mundo sabe. Absorvemos informações com tanta rapidez que talvez não seja mais possível encontrar uma parte do dia que não esteja conectada com a cultura da web. Quer um exemplo? Olhe ao seu redor, nas ruas, escolas e universidades. Nas paredes da UFPA, por exemplo, você encontra referências a séries, artistas pop e muuuitos memes.

Escolhemos tratar de um exemplo atual relacionado à cibercultura: as hashtags. Para quem não sabe, são palavras chave acompanhadas de “#” utilizadas nas redes sociais para tratar determinados tópicos ou assuntos. Elas funcionam como hiperlinks dentro da rede. Ou seja, se você digita “#ladygaga” no Twitter, é possível acompanhar tudo o que qualquer pessoa diz em tempo real sobre a artista – desde que o usuário use a mesma tag. A partir disso, as hashtags acabaram se consolidando como um meio de saber o que está acontecendo na internet. O Twitter possui os “trending topics”, e a partir deles é possível conferir quais são as hashtags mais utilizadas no mundo naquele determinado momento.

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Pierre Lévy, no livro Cibercultura, aponta três princípios básicos que partem da cultura surgida a partir da rede de computadores: interconexão, comunidades virtuais e inteligência coletiva. Todos se relacionam perfeitamente com as redes sociais, grandes nichos de informação em que qualquer assunto de interesse social pode viralizar em questão de segundos. Afinal, o que é o Twitter, Facebook ou Instagram senão grandes comunidades virtuais conectadas umas com as outras?

Lévy também discorre sobre a interatividade do modelo digital. Esse modelo tem uma forte característica: a autonomia da ação e reação. É aí que entram as hashtags. A partir de determinados acontecimentos, as tags “sobem” e com o passar do tempo “descem” na lista das mais populares do Twitter. A plataforma realiza atualizações em tempo real e divide as listas separando cada país ou cidade, mas também oferece a opção de lista mundial.

Os acontecimentos geram interação na rede. A interação gera hashtags. As hashtags geram cultura – a partir do pressuposto de que quando alguém vê a hashtag, no mínimo adquire conhecimento da situação e pode vir a comentar e disseminar as palavras chave, o que gera ainda mais discussão na rede.

Reflexões à luz da teoria de Pierre Lévy:

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Liberação da palavra: dar voz a quem antes não  era ouvido,  gerando uma comunicação em que todos têm a possibilidade da FALA, seja trocando informações, discutindo assuntos importantes ou por puro entretenimento.
(se você quer chamar atenção pra um determinado assunto de interesse social, que tal subir uma tag no twitter?)

Conexão ou conversação mundial: interconexão em esfera global que possibilita um fluxo incessante de informações e notícias que são atualizadas e vistas sob diferentes olhares  e que dão a cada sujeito a possibilidade de saber o que acontece no outro lado do mundo ou em um outro estado de seu país.

Reconfiguração social, cultural e política: a abertura de uma pluralidades de “vozes” sobre determinado assunto, em escala nacional ou internacional, pode por meio da interconexão comunicativa global, modificar padrões, discutir costumes e ações culturais. A fala se torna mais democrática e a opinião pública toma forma, por meio de um número expressivo de pessoas que carregam cada um a sua experiência e seu olhar pessoal sobre o assunto em questão.

Muitos exemplos podem ser citados para mostrar o funcionamento das tags como verdadeiras referências culturais e sociais. No artigo ­­­“Como o uso das hashtags na publicidade pode contribuir para a viralização de campanhas: um estudo de caso sobre a campanha #SomosTodosMacacos”  de Marcela Campos e Polyana Machado, estuda-se a repercussão da hashtag #SomosTodosMacacos, criada pelo jogador Neymar após Daniel Alves ter sido alvo de uma banana enquanto jogava uma partida. Graças à tag, o caso viralizou. Em poucos dias o #SomosTodosMacacos já havia sido utilizado em milhares de publicações – mais de 216.000 no Instagram até 20 de outubro de 2014, segundo Marcela e Polyana. O movimento gerou discussões e publicidade com a venda de camisetas. Esse é apenas um dos casos em que uma hashtag instigou um debate muito mais profundo. A #SomosTodosMacacos colocou em pauta o racismo, a civilidade e os direitos humanos.

Alguns usos da hashtag:

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Expressar opinião política –#MoroOrgulhoBrasileiro virou notícia nessa quarta feira (10/05) com o apoio dos brasileiros às investigações da Lava-Jato.

Comentar sobre programas, novelas, seriados, jogos de futebol –#DingDong, quadro do Domingão do Faustão, está em quinto lugar nos trendings brasileiros enquanto esse post é escrito, domingo à tarde. “Bahia” e “Atlético-PR” estão em primeiro e sétimo, respectivamente. A partida entre os times terminou há alguns minutos.

Popularizar artistas – é frequente o uso de tags por fãs de cantores, bandas, atores. Eles geralmente as utilizam para promover e divulgar o trabalho do artista. Essa semana, por exemplo, o After Laughter, novo álbum da banda Paramore, foi lançado. Tags como “LISTEN TO AFTER LAUGHTER” e “BUY AFTER LAUGHTER ON ITUNES” surgiram na rede social e alcançaram os trending topics mundiais.
Dias antes da divulgação da primeira música do novo CD da cantora Camila Cabello, a tag #TheHurtingTheHealingTheLove, nome do álbum, já atingiu o primeiro lugar nos trending topics do Brasil.

Eventos nacionais e internacionais – #BAFTATV está em nono nos trending topics mundiais ainda enquanto escrevemos. O Bafta é uma premiação de filmes, séries e audiovisual em geral.

Mobilização e apoio – a hashtag #ForçaChape foi amplamente divulgada após o trágico acidente do avião com os jogadores do time Chapecoense.

Justamente com a força que as redes sociais exercem na sociedade, a cibercultura tem um marco em seu espaço e ganha cada vez mais corpo. Hoje em dia, tudo que acontece ao nosso redor e tem um apelo público/social, pode virar uma pauta de interesse humano a ser debatida na internet. A possibilidade de uma discussão amplificada, em que temos como analisar nossas atitudes e pensamentos, torna-se também uma marca da cultura no meio digital. É nesse cenário que a cibercultura cumpre seus princípios.

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