Inovação e obsolescência

Às vezes é difícil lembrar como era a vida antes das mensagens instantâneas, da publicação e compartilhamento de fotos e da interação sem barreiras geográficas proporcionadas pelo Orkut, MSN, Facebook, Twitter (muitas plataformas diferentes para a mesma função: se comunicar). Mas a verdade é que as redes sociais já existem há muito tempo – só não da maneira que conhecemos.

O conceito de “rede social”, na verdade, vai muito além de “sdv”, “troco likes” e “link na bio”. O termo diz respeito a uma estrutura de pessoas ligadas por objetivos ou valores em comum. Ou seja: quando os nossos ancestrais se juntavam pra caçar, fazer uma fogueirinha e comer juntos, eles já estavam participando de uma rede social.

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Raquel Recuero explica que essas organizações eram relacionadas a lugares geográficos, proximidade física e, com o surgimento da CMC (Comunicação Mediada por Computador) a ideia de sociedade foi transformada. Aquilo que antes era uma união por interesses e ligações comuns evoluiu para agrupamentos complexos, levantando discussões públicas, criando novas relações sociais e derrubando o principal pilar ligado aos conceitos de sociedade anteriores à era digital: territorialidade.

Com a evolução das redes sociais, muitos outros conceitos foram reapropriados, como o de comunidade. Os grupos de convivência, pessoas ligadas por interesses comuns se transformou em fóruns online com objetivos parecidos: conectar pessoas com gostos parecidos, só que em diferentes lugares do globo. E falando em comunidades, quem não lembra das comunidades do Orkut?

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Muitos podem achar que a finada rede social partiu sem deixar rastros. Mas, na verdade, o Orkut está mais presente na nossa vida do que a gente imagina.

Isso se deve ao processo de convergência, classificado por Henry Jenkins como a reconfiguração das tecnologias, reapropriação de conteúdos e hibridização entre novas e velhas mídias – aquela velha história do “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

O que o Orkut tem a ver com isso? Tudo. Como muitas outras mídias, o Orkut foi “apropriado” por outras redes sociais, como o Facebook. De acordo com Jenkins: “Os velhos meios de comunicação não estão sendo substituídos. Mais propriamente, suas funções e status estão sendo transformados pela introdução de novas tecnologias”.

Aqui vão alguns pontos para pensar na convergência nossa de cada dia.

1 – Diferentes, mas nem tanto.

Em meados de 2009 o Orkut era uma febre. Quem não mandava depoimentos e scraps para os amigos ou se divertia com aplicativos como Colheita Feliz e BuddyPoke? Aos poucos, a rede social criada por Mark Zuckerberg foi se tornando a queridinha do público e o Orkut foi caindo no esquecimento até ser encerrado em setembro de 2014.

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Paramos de usar o Orkut. Mas foi graças ao “território recombinante” dos meios de comunicação que o Facebook acabou se popularizando. O conceito da recombinação cunhado por André Lemos expressa exatamente a transformação da qual falamos.

Tanto o Orkut quanto o Facebook surgiram a partir da necessidade de se comunicar de maneira rápida e integrar-se socialmente ao maior número de pessoas possível. E, “uma vez que um meio se estabelece, ao satisfazer alguma demanda humana essencial, ele continua a funcionar dentro de um sistema maior de opções de comunicação”, coloca Jenkins. Ou seja, aquilo que deu certo no Orkut, foi apropriado e aprimorado pelo Facebook.

2 – O que dizer sobre esse cara que eu nem conheço e já considero pakas?…

Você já mandou um depoimento para os seus amigos no Facebook? Tudo bem, a gente sabe que essa era uma função do Orkut, mas o que são as publicações no mural do Facebook de amigos senão uma versão evoluída dos famosos “depôs”?

As duas redes surgiram em 2004 e fizeram muito sucesso aqui no Brasil. O país era um dos que mais tinham usuários da rede, junto com a Índia, e até 2014 ainda contava com 6 milhões de usuários brasileiros ativos. Entretanto, desde 2011, o Facebook já havia superado o Orkut em número de usuários e também já liderava o mercado brasileiro.

O Orkut nem fez tanta falta assim, fez? Afinal, todas as funções também estão presentes no Facebook.

Queria participar de comunidades como essa?

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No Facebook tem essa:

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Queria jogar esse joguinho maravilhoso?

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No Facebook tinha esse:

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Os fandoms também cresceram:

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No meu tempo, a gente conquistava o crush via BuddyPoke.

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Agora tem altas opções.

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3 – Uma rede para cada coisa

Brincadeiras à parte, o ponto mais importante da convergência é observar que as redes, sistemas, aparelhos vão se tornando um só. Isso foi o que Jenkins chamou de “a falácia da caixa preta”, que diz respeito a uma caixa em que todos os conteúdos midiáticos conseguiriam fluir simultaneamente. Por exemplo: antes o celular servia para fazer ligações e mandar sms. Agora os telefones são um “teletudo”, como afirma Lemos – acessamos qualquer site, aplicativo, enviamos fotos, vídeos, músicas e mensagens de voz em um só lugar. E temos milhares de plataformas para fazer isso: WhatsApp, Facebook, Snapchat, Instagram.

Mas convergência não é só isso…

Para Jenkins, a cultura da convergência é “onde as velhas e as novas mídias colidem, onde mídia corporativa e mídia alternativa se cruzam, onde o poder do produtor de mídia e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisíveis”. E quem ia prever, por exemplo, que a Cuca ficaria internacional? É esse tipo de coisa que a convergência traz.

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Depois de Gretchen e Nazaré Tedesco (ou math lady pros gringos), em junho de 2017, os gifs da nossa Cuca passaram a ser usados como um ícone LGBT no Twitter e, a partir daí, alcançaram o mundo. Até o famoso blogueiro Perez Hilton se aproveitou da fama da Cuca e estampou a bruxa em camisetas com frases obscenas.

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Para nós, o importante dessa história é: “A circulação de conteúdos – por meio de diferentes sistemas midiáticos, sistemas administrativos de mídias concorrentes e fronteiras nacionais – depende fortemente da participação ativa dos consumidores” (JENKINS, 2009, p. 27). A convergência está no fato de que a Cuca, depois de sair dos livros infantis, foi para a TV e, anos mais tarde, bombou no Twitter gringo.Toda essa movimentação, partindo do obsoleto para o atual, é convergência.

4 – Um mar de possibilidades

A convergência acontece todos os dias: com a criação de um novo aplicativo e o lançamento de novas versões das redes sociais, com mais funcionalidades e interação. “A convergência refere-se a um processo, não a um ponto final”, diz Jenkins. Então, nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos, com novos memes, novas redes e aplicativos.

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